Matías Silva fotografia

Início / Blog

Como ler o histograma: a ferramenta para não queimar nem perder as sombras de uma fotografia

O ecrã da câmara engana. Ao sol parece escuro, à noite parece brilhante, e uma fotografia que parece bem na mão pode estar queimada no computador. O histograma não depende do ecrã nem da luz à volta: é a forma mais fiável de saber se a exposição está bem.

Este artigo vem depois de Triângulo de exposição e Modos da câmara. Com o histograma ficas a saber se os ajustes que escolheste funcionaram.

O que mostra

O histograma é um gráfico de quantos píxeis da fotografia há em cada nível de brilho.

  • Eixo horizontal: o brilho. À esquerda, o preto puro. À direita, o branco puro. No meio, os tons intermédios.
  • Altura: quantos píxeis têm esse brilho. Uma montanha alta num ponto significa que grande parte da fotografia tem esse tom.

Não mostra onde está cada tom na imagem, apenas quanto há de cada um. Um céu claro e uma parede branca somam no mesmo sítio do gráfico.

Zona do gráficoO que representaExemplos
Extremo esquerdoPretosSilhuetas, noite, sombras profundas
EsquerdaSombrasÁrvores em contraluz, interiores
CentroMeios-tonsPele, relva, céu azul, asfalto
DireitaAltas luzesNuvens, areia ao sol
Extremo direitoBrancosEspuma das ondas, o sol, a neve

Os dois problemas que deteta

1. Altas luzes queimadas. Se a montanha bate no extremo direito e fica cortada, uma parte da fotografia ficou em branco puro, sem informação. É o que acontece com um céu de pôr do sol que fica branco, ou com a espuma de uma onda sem textura. Na edição não se recupera: não há dados para recuperar.

2. Sombras cortadas. Se a montanha bate no extremo esquerdo, uma parte ficou em preto puro. Recupera-se um pouco mais do que as altas luzes, sobretudo em RAW, mas ao aclarar aparece ruído.

Muitas câmaras têm ainda um alerta de altas luzes: ao ver a fotografia, as zonas queimadas piscam. Ativa-se no menu de reprodução, com nomes como "Alerta de altas luzes", "Realces" ou "Destacar zonas queimadas", conforme a marca.

Família a caminhar em direção ao mar ao pôr do sol, em contraluz, numa rua da Nazaré.
Num contraluz, a montanha espalha-se para os dois extremos: sombras escuras e o céu perto do branco. O importante é que o sol seja a única coisa a tocar no extremo direito. Nazaré.

Não existe um histograma correto

O erro mais comum é pensar que a montanha tem de estar centrada. Não é assim: o histograma correto depende da cena.

  • Cena clara (praia ao sol, neve, uma parede branca): a montanha vai para a direita, e está bem.
  • Cena escura (a cidade à noite, um interior com pouca luz): a montanha vai para a esquerda, e está bem.
  • Cena com muito contraste (um contraluz ao pôr do sol): a montanha espalha-se para os dois extremos. Aí é preciso decidir o que se sacrifica.

A pergunta não é "está centrada?", mas sim "cortou-se alguma coisa importante?". Se a única coisa a tocar no extremo direito é o sol, não importa. Se é a cara de uma pessoa ou a crista da onda, é preciso corrigir.

Como corrigir

O que vêsEm A/Av, S/Tv ou PEm manual
Montanha cortada à direitaCompensação de exposição em −0,7 ou −1Velocidade mais alta ou diafragma mais fechado
Montanha cortada à esquerda (e a sombra importa)Compensação em +0,7 ou +1Velocidade mais baixa, diafragma mais aberto ou mais ISO
Cortada dos dois ladosA cena tem mais contraste do que o sensor consegue registar. Escolhe o que proteger (quase sempre as altas luzes) ou faz várias fotografias com exposições diferentes para as combinar.

Histograma RGB

Muitas câmaras oferecem duas versões: luminância (um só gráfico) e RGB (um por cada cor: vermelho, verde e azul). Convém usar o RGB: num pôr do sol, o canal vermelho queima antes dos outros, e no gráfico de luminância isso não se vê. O resultado é um laranja plano, sem degradé.

Um pormenor se fotografas em RAW

O histograma da câmara é calculado sobre a pré-visualização em JPEG, não sobre o ficheiro RAW. O RAW costuma guardar um pouco mais de informação nas altas luzes do que o gráfico mostra. Por isso, se o histograma tocar apenas ligeiramente no extremo direito, muitas vezes recupera-se na edição. Serve como margem, não como desculpa: o seguro é não cortar.

Onde o ver

  • Ao rever a fotografia: em quase todas as câmaras, carregando várias vezes no botão de informação (INFO ou DISP) em reprodução.
  • Antes de disparar: as câmaras sem espelho e muitas reflex em visualização direta mostram-no ao vivo, no ecrã ou no visor eletrónico. É a forma mais rápida de trabalhar.
  • No telemóvel: as aplicações de câmara com modo profissional ou manual costumam mostrá-lo; a câmara nativa do iPhone e de muitos Android, não.

Exercício para praticar

Procura uma cena com céu e sombra ao mesmo tempo: uma rua ao fim da tarde, uma árvore contra o céu. Tira a mesma fotografia com a compensação de exposição em −1, 0 e +1. Vê como a montanha se desloca em cada caso e em qual das três o céu deixa de tocar no extremo direito. Depois compara as três no computador.

Leitura anterior: Modos da câmara: quando usar A, S, M e P.